Família: infelizmente, a única barreira efetiva contra os golpistas.


A economia brasileira está se transformando em um ambiente cada vez mais propício e lucrativo para os golpistas. Com o advento da hiper conectividade e de um cenário de compartilhamento amplo e temerário de dados pessoais, muitos dos meus familiares e amigos, principalmente os mais idosos, estão se deparando com tentativas de fraude diariamente. Infelizmente, muitos sucumbem às artimanhas dos bandidos e acabam por perder seu patrimônio em razão de sua falta de informação e excesso de credulidade. Esta é a realidade que encontro frequentemente nos atendimentos realizados no plantão da Divisão de Assistência Judiciária da UFMG. Muitas das vezes os golpes são irreversíveis, pois, eventual culpa de outros não é demonstrável.
Esta prevalência do sucesso dos golpes entre os idosos têm o caráter perverso da exploração de pessoas que formaram seus valores em outros tempos, onde a palavra impressa gozava de mais credibilidade do que hoje. Os “vendedores de óleo de cobra” sempre existiram, bem como os comerciantes de títulos de crédito e ações fraudulentas. Entretanto, o alcance destes golpistas era reduzido pela sua incapacidade de se conectar amplamente com tantas pessoas, bem como pela necessidade dos farsantes terem de “colocar a cara” para executar seus empreendimentos.
Hoje, estamos vivendo na era do paraíso dos golpistas, onde o acesso a informações pessoais é abundante, assim como a transição geracional não encerrada impede que a cautela em ambientes virtuais seja culturalmente ubíqua de modo suficiente para que as tentativas de tais crimes sejam amplamente frustradas.
É preciso levar em consideração que o alvo de tais tentativas, em sua maioria, são pessoas que passaram a maior parte de suas vidas incólumes ao bombardeio de ofertas e informações no qual vivemos atualmente. Boa parte das gerações mais jovens já nasceram neste ambiente e, em sua maioria, trata esse ruído constante como “white noise”, algo que o cérebro escolhe ignorar para evitar a insanidade, como quando cada vez que engolimos a saliva é possível escutar o movimento da garganta, mas deixamos de prestar atenção pelo bem da nossa psique.
Para as gerações mais antigas, as informações têm peso e relevância, mesmo que sem peso e sem relevância. Este fenômeno sociológico pode estar relacionado ao fato de que antes da popularização da internet produzir conteúdos e difundi-los de forma massificada tinha um custo quase que proibitivo para ser realizado por qualquer um. Dessa forma, a legitimidade dos conteúdos informativos e de propaganda tinha como fundamento o investimento necessário dedicado à ela. Obviamente, tal fundamento não é absoluto, mas reduzia significativamente a probabilidade de falsidade das informações e ofertas difundidas, reduzindo também a probabilidade de danos causados a vítimas.
Um aspecto psicológico importante a se levar em consideração é também o fato de que pessoas idosas tendem a resistir a reconhecer qualquer fato que enseje uma perda, mesma ilusória, da sua autonomia e controle. A relação entre filhos adultos e pessoas idosas tende a ser marcada pela percepção pelos filhos de uma “teimosia” dos pais em ouvir e aceitar conselhos, o que favorece o impulso para se abster dos negócios dos pais por parte dos filhos de modo a não criar atrito na família.
Dada a necessidade de que os filhos e netos (e outros familiares jovens) protejam essa população mais velha dos inúmeros golpes na internet, é imprescindível que os próprios adultos jovens realizem um esforço comunicativo que busque salientar o caráter informativo e protetivo de seus conselhos, enfatizando de forma clara que o que eles estão buscando fazer não afetará o nível de controle e independência dos seus pais, avós, tios, etc.
Também é necessário, por parte daqueles das faixas etárias mais avançadas, o reconhecimento do nível de confiança que cada um pode ter com seus parentes mais jovens, de modo que tenham o apoio necessário em assuntos que, notavelmente, são mais complexos para gerações anteriores à era hiper digitalizada.
É público e notório que os estelionatários têm passe livre para fazerem o que querem no Brasil. São anos para que sejam identificados, depois anos para serem processados, e quando vem a sentença condenatória a pena do primário o permite o regime semiaberto ou até mesmo o aberto. Isto se a sentença transitar em julgado após infinitos recursos. Depois disso, serão anos para que sejam pegos novamente, mais anos para que sejam processados novamente, e anos para que sejam condenados a uma pena branda novamente que, claramente, “compensa”. São tantos os anos, entre os crimes e qualquer pena relevante que, antes disso, o estelionatário já contribuiu o suficiente para sua aposentadoria e pode descansar tranquilo.
Dado esse cenário desolador que escancara a impotência do Estado brasileiro em punir os que achacam e roubam pessoas humildes e simples, cabe a nós, para além das iniciativas políticas, proteger os nossos familiares e amigos por meio de uma comunicação ampla, franca e respeitosa, que leve em consideração a condição psicológica das pessoas das faixas etárias mais avançadas, fornecendo conselhos e apoio, inclusive emocional de modo que a vulnerabilidade delas seja mitigada sem afetar o senso de independência e autonomia.
Não podemos deixar aqueles que amamos a mercê dos criminosos e nem dependentes de um Estado tolerante ao estelionato. Façamos o que pode ser feito.


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